O Barbeiro Brasileiro ficou todo contente quando soube que o homem na sua cadeira era advogado. O outro, já sentado, quase deitado, com uma barba de espuma na cara, tinha todas as razões para ficar desconfortável: há muito poucas pessoas no mundo que um gajo quer tão pouco ver entusiasmado ou exaltado do que um barbeiro de lâmina na mão.
-'cê nem vai acreditar, mas eu tenho um caso p'rá lhe contar.- Começou. Estava envolvido num processo, já se tinha informado. Já era praticamente advogado.
O Brasileiro tinha uma barbearia em Matosinhos, tinha falado com uma suposta comercial que lhe tinha montado um wifi hotspot que não precisava de contrato. Ele, passado uns meses, fechou o hotspot e a empresa pediu-lhe para pagar o que faltava da fidelização de um contrato que supostamente nunca foi assinado.
-Eu vou ganhar, né?
Afinal de contas, perguntava, como é que era possível perder? Eles nem encontravam o contrato, como o podiam cobrar?
O problema, claro, é que o estavam a cobrar. Tinham lhe pedido €300, mas com os juros já estavam a pedir 500. Como ele não pagava, puseram-no em tribunal, e o nome numa lista de devedores. Ele tinha fechado a barbearia só para conseguir o apoio de um advogado e ia levar isto até ao fim.
Alimpar a espuma da lâmina no rolo, dizia que só podia ganhar. - E quando ganhar, vou pedir ó senhor juiz: me mude de nome.
O advogado, que ainda não tinha conseguido falar, interviu:
-Pode ganhar, ou não ganhar, mas acho que não o vão deixar mudar o nome.
Vê-lo a contradizer um homem que lhe estava a segurar no maxilar com uma mão e numa lâmina afiada com a outra, - impressionou.
Mas o Brasileiro não cedia. Tinham-lhe manchado o nome, "e há coisa pior do que nome sujo?" Não há. Os amigos já gozavam com ele quando o viam, já lhe escreviam acusações no facebook. Não, o nome já não estava limpo, o Brasileiro queria um nome novo - e iam ser eles a dar-lho.
Talvez o do seu pai, explicou, já a acabar. Nasceu sem o nome do pai, e se o dele estava sujo, gostava que lhe dessem o nome do pai. Era muito importante para ele. Dizia, algo ironicamente, que seria legal.
E sem ninguém perguntar, o Brasileiro adiantou o nome do pai que queria tanto agora assumir como o seu:
-Miguel Relvas.
Ainda pensei em dizer alguma coisa, em o avisar. Mas não. Já estava despachado, tinha ouvido uma boa história, paguei, e saí. Quando este processo chegar a tribunal, vai dar bons artigos.
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